Livros

No Labirinto Messiânico de Fernando Pessoa

«Perdi-me dentro de mim,
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.»

Mário de Sá-Carneiro

Tentar compreender e interpretar Fernando Pessoa é confrontar-se com o enigma e com o mistério. O pensamento messiânico do Poeta-Vate é um tecido de patências, problemas e enigmas — três formas de conhecimento a que o ser humano pode aceder com as suas faculdades cognoscitivas. Mas, perante o mistério, ele esbarra na parede do incognoscível. Para além desse muro, fica o espaço da incognoscibilidade, gerador da correspondente inacessibilidade gnósica do Princípio Supremo.

A ideia de labirinto encontra-se ligada à arte da arquitectura. O labirinto foi, efectivamente, na Antiguidade, uma construção, tão complexa e intrincada no seu interior que não pudesse sair dele, ou tivesse dificuldade imensa em fazê-lo, aquele que lá entrasse. Houve vários. O mais célebre é o labirinto de Creta, construído por Dédalo, por ordem do rei Minos, para encerrar o Minotauro.

O labirinto teria uma única saída, dificílima de encontrar. A ideia instalada é que essa saída não coincidia com a entrada. A solução encontrada por Ariadne, ensinada pelo próprio Dédalo, contraria esta ideia, pois a saída acabava por ser a entrada. Foi Dédalo que ensinou Ariadne. Aquele que construiu o labirinto é que sabia como sair dele. No labirinto de Fernando Pessoa, sigamos a Fernando Pessoa, como nosso Dédalo.

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História Secreta da Ordem de Avis

Numa altura em que tanto se escreve sobre a Ordem do Templo e o inegável papel dos cavaleiros templários na fundação do reino de Portugal, urge também resgatar a memória das outras ordens religioso-militares no nosso país. Destas, a Ordem de Avis é aquela que é genuinamente portuguesa, tendo dado o seu nome à dinastia real mais brilhante da nossa história.

Face à escassez de dados historiográficos sobre o tema, o autor realizou uma profunda investigação sobre a vertente mística e esotérica da Ordem. Tendo tido acesso a documentação reservada, foi possível descodificar vários aspectos simbólicos até então desconhecidos.

Um dos aspectos centrais da pesquisa foi procurar a razão pela qual o Professor Henrique José de Souza (fundador da Sociedade Teosófica Brasileira) afirmou que a Ordem de São Bento de Avis “servia de escudo ou cobertura exterior” à antiga e enigmática Ordem de Mariz.

A resposta a esta e outras questões encontra-se no coração deste livro, que tem como propósito não só preencher a referida lacuna, como estimular futuras investigações.

19,90 
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Mitos e Lendas Nórdicas

Uma viagem pelos mitos de Odin, Thor e Loki, Freyr, Freya e Heimdall, pelas lendas de Sigurd, Fáfnir e Brynhild e as sagas de Egill e Eric, o Vermelho, como nunca se tinha feito em Portugal.

Do corpo de Ymir, Odin e os seus irmãos fizeram o mundo e da terra nasceram os anões. Heimdall multiplicou os humanos, os Vanir lutaram até entrar na comunidade divina e os deuses fizeram uma muralha com um acordo arriscado e um toque de trapaceiro. E depois… depois vieram outros episódios de amor e vingança, guerra e paz, de tesouros mágicos e demandas heroicas, de monstros e deuses, maldições e profecias, laços solenes e votos quebrados, vikings e reis, poetas e exploradores – até ao destino final que tudo destrói e renova.

Este livro aborda uma mitologia ao mesmo tempo conhecida e desconhecida entre nós, por um lado popularizada pelos mecanismos da cultura moderna, por outro desconhecida na sua expressão antiga, preservada em textos medievais tantas vezes distantes para o grande público. Distância essa que se pretende colmatar, dando a conhecer episódios, personagens, teorias e questões que marcam os mitos e lendas nórdicas, oferecendo narrativas próximas das originais e uma análise cuidada de cada uma.

Como diria a vidente que abre a Edda Poética: «Conhece a origem dos tesouros divinos? A génese da poesia? A história da entrada de Skadi na comunidade divina? A maldição do anel? A vingança de Gudrún? As aventuras de Egill? As viagens de Leif?» Com este livro, conhecerá!

29,90 
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Nadja – Ninfeta Virgem do Inferno

Nunsky (1972) é um criador nortenho que só participou neste zine, o Mesinha de Cabeceira . Assina o número treze por inteiro, um número comemorativo dos 5 anos de existência do zine e editado pela Associação Chili Com Carne. Essa banda desenhada intitulada 88 pode ser considerada única no panorama português da altura (1997) mas também nos dias de hoje, pela temática psycho-goth e uma qualidade gráfica a lembrar os Love & Rockets ou Charles Burns. O autor desde então esteve desaparecido da BD, preferindo tornar-se vocalista da banda The ID’s cujo o destino é desconhecido. Nunsky foi um cometa na BD underground portuguesa e como sabemos alguns cometas costumam regressar passado muito tempo…

Nadja – Ninfeta Virgem do Inferno… é um verdadeiro deboche gráfico anti-cristão para quem curte bandas de Hair Metal de Los Angeles dos 80, fãs distópicos do RanXerox e revivalistas da heroína.

9,50 
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Megg, Mogg & Mocho

Tradução e legendagem por André Pereira. Design de Joana Pires.

Simon Hanselmann (Lauceston, 1981) nasceu na Tasmânia e passou a sua infância e adolescência num dos sítios de maior taxa de criminalidade da Austrália. O seu pai era motoqueiro e a mãe toxicodependente que efectuava pequenos furtos e vivia da segurança social para sustentar a sua criança. Também é sabido que roubada livros da Fantagraphics Books da biblioteca para o seu filho.

Aos 8 anos, Simon começou a fazer BD mas na sua juventude passou por várias terapias de combate à ansiedade e depressão, acabando por consumir álcool e drogas psicotrópicas em grande quantidade. Saiu de casa da mãe em 2001 e viajou pelo mundo estabelecendo-se actualmente nos EUA com a sua mulher. Antes disso Simon casou-se com a BD – não é erro nosso, ele casou-se mesmo com a BD numa convenção! É conhecido pela sua inclinação para o transvestismo aparecendo publicamente vestido de mulher, muitas vezes de Megg, a bruxa da série Megg, Mogg e Mocho.

Foi esta série que lhe trouxe fama à escala global ao ponto de até ser publicado em Portugal! Há quem diga que é uma mistura de Todd Solondz, Peter Bagge e Os Simpsons. Apesar da predominância humorística da série, ela é compensada várias vezes com estados emocionais do autor, admitindo usá-la como terapia pessoal.

12,00 
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Simplesmente Samuel

Simplesmente Samuel é uma narrativa visual silenciosa, uma homenagem à vida e à existência humana. Samuel é uma figura fantasmagórica que caminha por um mundo colorido (muito parecido com o nosso) praticamente invisível para o que está ao seu redor, como um verdadeiro herói da nossa vida quotidiana e mundana. As vinhetas sem palavras de Simplesmente Samuel lidam com o individualismo e o conceito de liberdade, ponderando nossas atitudes diárias, escolhas e os valores por trás delas – tudo isso através das acções e expressões de Samuel.

Simplesmente Samuel é a continuação de Caminhando Com Samuel (2009), primeiro trabalho de Tommi Musturi com este “pequeno fantasma que caminha”, e escolhido pelo jornalista Paul Gravett para o livro de referência 1001 Comics You Must Read Before You Die.

O traço de Musturi exprime uma narrativa contundente, combinando psicadelismo dos seus mundos interiores com uma precisão matemática no acabamento e no design. O universo rico em cores e formas funciona como uma parte da narrativa ecléctica que continua a surpreender o leitor página a página.

Simplesmente Samuel é um romance gráfico peculiar, que induz o leitor a ver e experimentar a arte impressa em um outro nível.

20,00 
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Sapiens: A Origem da Humanidade – Novela Gráfica

Há cem mil anos, caminhavam pela Terra pelo menos seis espécies diferentes de humanos. Nos dias de hoje, existe apenas uma: o Homo sapiens. O que aconteceu aos outros? E o que nos acontecerá a nós?

Neste primeiro volume da adaptação do brilhante Sapiens: História Breve da Humanidade para novela gráfica, feita em parceria com o escritor David Vandermeulen e o ilustrador Daniel Casanave, Yuval Noah Harari conta -nos a história de um simples símio que acabaria por se tornar o rei do planeta Terra, capaz de dividir o átomo, voar até à Lua e manipular o código genético da vida.

Carregado de humor e originalidade, Sapiens: A Origem da Humanidade permite-nos assistir, em tempo real, ao primeiro encontro entre sapiens e neandertais, à extinção dos mamutes e dos tigres dentes-de-sabre, e às descobertas que acabaram por definir-nos enquanto caso único na Natureza.

Com 248 páginas ilustradas a cores, este é o livro perfeito para alargar o diálogo iniciado em Sapiens:História Breve da Humanidade,e para apresentar o universo e as ideias de Yuval Noah Harari a novos leitores, curiosos pelo que tem sido a longa e agitada história do ser humano.

24,99 
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1984 – Novela Gráfica

No ano 1984, Londres é uma cidade lúgubre, em que a Polícia do Pensamento vigia de forma asfixiante a vida dos cidadãos. O mais grave dos crimes é ter uma mente livre.

Winston Smith é um peão nesta engrenagem perversa e a sua função é reescrever a História para a adaptar ao que o Partido considera a versão oficial dos feitos. É o que faz, até decidir questionar a verdade do sistema repressor. Na ânsia de liberdade e verdade, arrisca a vida ao apaixonar-se por uma colega, a bela Julia, e rebelar-se contra o poder vigente.

Publicada originalmente em 1949, a obra mais poderosa de George Orwell é, pela primeira vez, adaptada a novela gráfica, no traço do artista brasileiro Fido Nesti, que capta magistralmente os rostos, corpos e cenários de um mundo que, cada dia, é menos difícil de imaginar.

21,90 
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Chet Baker Pensa na Sua Arte

É meia-noite, em fundo toca Bela Lugosi’s Dead, do grupo Nouvelle Vague, e nem sequer a música me impede de pensar nessa realidade «bárbara, brutal, muda, sem significado, das coisas» de que falava Ortega. Olho pela janela e vejo a vida inerte, e parece-me que esse tipo de realidade bárbara e muda é especialmente percebida hoje por quem – como já Musil pensava – acha que no mundo não existe já a simplicidade inerente à ordem narrativa, essa ordem simples que consiste em poder dizer às vezes: «Depois de aquilo ter acontecido aconteceu isto, e depois aconteceu outra coisa, etecetera».
Tranquiliza-nos a simples sequência, a ilusória sucessão de factos.

12,00 
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Ar de Dylan

Um prolífico escritor vai a um extravagante congresso, para o qual recebeu convite, com alguma estranheza e uma certa inquietação. No mesmo encontro, participa, em lugar do pai recentemente falecido, Vilnius, um jovem criativo com um certo ar de Dylan, que tem como objectivo último da sua vida alcançar o mais total e absoluto fracasso, tema que preside ao invulgar congresso. Mas fracassar absolutamente não é nada fácil. Que fazer? Nada? Ou pedir ajuda? O escritor, por sua vez, deseja pôr um ponto final na sua já vasta obra e atingir o mutismo radical e definitivo. Fascinado por Vilnius, segue-lhe o percurso e observa-lhe os estratagemas para chegar ao fracasso. É possível que, com a sua improvável união, rodeados e isolados por uma teia de personagens, consigam ter sucesso nas suas buscas. Talvez o sucesso não seja o que em geral se pensa. Assim, fracasso e sucesso deixariam de ser antónimos, para se transformarem numa mesma coisa.

«Ar de Dylan é um livro brilhante, talvez mesmo o melhor dos romances do seu autor.»
José Riço Direitinho, Ler«Amavelmente ácido e deliciosamente digressivo, o romance tanto acolhe referências concretas ao meio cultural de Barcelona como acumula pontos de fuga, um acontecimento lembra Joseph Roth, outro evoca Sterne, outro ainda parece um episódio de Cheever.»
Pedro Mexia, Expresso

 

16,00 
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Somos Todos Canibais

Este livro reúne um conjunto de dezasseis textos escritos por Claude Lévi-Strauss entre 1989 e 2000 a pedido do jornal italiano La Repubblica, onde foram originalmente publicados. Quer se trate da epidemia chamada das vacas loucas, de formas de canibalismo (alimentar ou terapêutico), de preconceitos racistas ligados a práticas rituais (a excisão ou mesmo a circuncisão), o etnólogo incita-nos a compreender os factos sociais que se desenrolam sob os nossos olhos evocando a obra de Montaigne, um dos momentos fundadores da modernidade ocidental: «Cada qual chama barbárie ao que não está nos seus costumes».

Nestas crónicas, que trazem o cunho dos últimos anos do século XX, encontramos a lucidez e o pessimismo tónico do grande antropólogo que foi Lévi-Strauss.

14,00 
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Filosofia das Religiões

Um extraordinário livro que reflete o debate do ateísmo-teísmo, onde podemos encontrar ensaios que debatem as perspetivas das religiões não teístas fazendo a sua psicanálise e o estudo da ética ambiental das várias religiões.

59,00 
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Campos do Imaginário

Gilbert Durand é relativamente conhecido do público universitário, tendo assinaláveis ligações a Portugal. Discípulo confesso do filósofo Gaston Bachelard (1884-1962) e da sua quadripartida teoria da imaginação simbólica e material, centrada nos elementos primordiais da cosmogonia de Empédocles (Terra, Água, Ar e Fogo); e influenciado também pelos trabalhos de Psicanálise do suíço C. G. Jung (1875-1961) e da sua teoria do inconsciente colectivo (reserva de imagens primordiais ou arquétipos), G. Durand propôs um inovador enfoque mitológico ou arquetípico da imaginação criadora, com reconhecidas aplicações no campo da estética e da crítica literárias. Na sua actuação sociológica e cultural, o ser humano é dotado de uma inquestionável faculdade simbolizadora. Por conseguinte, a criação artística e literária não deve ser concebida fora de uma Poética do Imaginário, que intepreta os símbolos e as imagens recorrentes como projecções in-conscientes dos arquétipos em que se configuram as profundezas do inconsciente colectivo. Neste contexto de uma perspectiva imagético-temática, deve-se a G. Durand uma notável e abarcante tentativa de classificação taxionómica das imagens do sistema antropológico, a partir dos arquétipos colectivos, agrupando-as em dois regimes (diurno e nocturno) e três reflexos dominantes (posição, digestivo e rítmico ou copulativo). Com esta perspectiva mitocrítica e este atlas antropológico da imaginação humana, e na esteira das aportações da Psicanálise, do Surrealismo e da fenomenologia bachelardiana, G. Durand procurava reagir contra a desvalorização ontológica da imagem e do imaginário, bem como contra os excessos formais do Estruturalismo dos anos 60 e 70.

No âmbito das “relações portuguesas” de G. Durand, destacaria alguns factos significativos: em 1981, este autor francês pronunciou uma série de conferências em Lisboa, depois reunidas em Livro (Mito, Símbolo e Mitologia). Dois anos depois do seu estudo sobre os Mitolusismos de Lima de Freitas, o Professor Gilbert Durand foi agraciado, em 1989, com o Doutoramento Honoris Causa, atribuído pela Universidade Nova de Lisboa. Nessa cerimónia académica, G. Durand foi apadrinhado pelo Prof. Helder Godinho e teve como orador o Prof. João Morais Barbosa. Os textos deste acto académico, nomeadamente a Oração de Sapiência do homenageado, foram publicados na Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, 3 (1989), pp. 235-262, da referida instituição. Finalmente, em 1994, G. Durand apresentou uma comunicação intitulada O Imaginário, Lugar do “Entre Saberes”, no I Congresso Internacional de Transdisciplinaridade, organizado na Universidade Internacional de Lisboa, texto recolhido neste livro que agora se apresenta (pp. 231-244). Deve-se ainda a Gilbert Durand o prefácio a uma outra obra de Lima de Freitas, recentemente falecido, intitulada 515 Le Lieu du Miroir (Art et Numérologie), publicada em Paris no ano de 1993, na “Bibliotèque de l’Hermetisme”.

A obra agora publicada de G. Durand, Campos do Imaginário, é uma recolha de 14 trabalhos publicados entre 1953 e 1996, cronologicamente ordenados. Nas palavras prefaciais de Danièle Chauvin e de René Bourgeois, que organizaram esta obra para iniciar uma colecção intitulada “Ateliers de l’Imaginaire”, esta publicação do mestre, fundador e animador do Centro de Pesquisa do Imaginário de Grenoble, apresenta-se como uma merecidíssima homenagem ao grande investigador do Imaginário da segunda metade do séc. XX. Ao mesmo tempo, dada a dificuldade de o leitor encontrar estes estudos, publicados originalmente em forma de artigo ou apresentados em forma de comunicação, esta obra transforma-se também numa preciosa referência para todos os interessados nesta perspectiva de abordagem do imaginário artístico-literário. Por fim, saliente-se o facto de a obra ser ainda enriquecida com a completa bibliografia activa de G. Durand, bem como com dois beves mas proveitosos índices (de noções e de nomes).

Campos do Imaginário inicia-se com um estudo sobre a Psicanálise da Neve, de 1953, dedicado a G. Bachelard. De facto, em L’Eau et les Rêves, o seu mestre não tinha reflectido devidamente sobre o simbolismo das imagens da Neve. Reveladores do significativo leque de interesses de G. Durand, unificados pela perspectiva indagadora do Imaginário, seguem-se trabalhos sobre aspectos tão variados como: Mito e Poesia; As Categorias do Irracional, Prelúdio à Antropologia; O Universo do Símbolo; Perenidade, Derivações de Desgaste do Mito; O Social e o Mítico: para uma Tópica Sociológica; Método Arquetipológico: da Mitocrítica à Mitanálise; O Imaginário e o Funcionamento Social da Marginalização; Redundâncias Míticas e Renascimentos Históricos; Longínquo Atlântico e Próximo Telúrico, Imaginário Lusitano e Imaginário Brasileiro; Carta sobre os Dois Mitos Directores do Séc. XIX; Roger Bastide, os Longínquos e as Jumentas; ou Passo a Passo Mitocrítico.

É possível rastrear a significativa influência das investigações de G. Durand no campo da moderna crítica, teoria e estética literárias, como se pode constatar em vários trabalhos de síntese sobre a Teoria da Literatura contemporânea ou, mais concretamente, em estudos que abordam as múltiplas relações entre a Psicologia, a Psicanálise, o Imaginário e a Literatura. O leitor mais interessado encontra uma boa demonstração da relevância teórico-crítica das propostas de G. Durand na sistematização bibliográfica das páginas que acompanham o seu trabalho — Método arquetipológico: de la mitocrítica al mitoanálisis, in Congreso de Literatura (Hacia la Literatura Vasca), Madrid, 1989, pp. 87-97.

Em França, derivados ou paralelos aos estudos de G. Bachelard e G. Durant, e com maiores ou menores afinidades, citem-se os trabalhos relativamente conhecidos e influentes de Marcel Raymond, Albert Béguin, Georges Poulet, Jean-Pierre Richard, Jean Rousset, Charles Mauron ou Jean Burgos. Em Espanha, a Poética do Imaginário teve em António García Bérrio um dos seus principais intérpretes. Depois de, em 1985, ter publicado La Construcción Imaginaria en ‘Cántico’ de Jorge Guillén, em 1989, na sua conhecida Teoría de la Literatura (La Construcción del significado poético), este professor procura universais antropológicos como base da poeticidade, chegando aos conceitos de espacialidade e dos movimentos da imaginação humana. Em parceria com Mª Teresa Hernández Fernández, em ‘Ut Pictura Poesis’: Poética del Arte Visual, de 1988, García Bérrio aplica os regimes simbólicos da imaginação ao domínio das artes visuais. Também Isabel Paraíso, no seu manual El Comentario de Textos Poeticos, de 1988, aplica a teoria da imaginação simbólica de inspiração durandiana ao comentário de textos.

Em Portugal, o pensamento de G. Durand também não tem passado despercebido, embora não esteja ainda tão divulgado e potencializado quanto deveria. Neste contexto, e a título de rápido exemplo, merecem compreensível destaque as obras de dois professores universitários portugueses. Com efeito, as propostas hermenêuticas de G. Durand, bem como do seu mestre Gaston Bachelard, foram objecto de sistematização crítica por parte de João Mendes (professor da Univ. Católica, Braga), no Cap. 2 da sua Teoria Literária (Verbo, 1980, pp.11-48). Nestas propostas, encontrou este professor jesuíta o método crítico adequado para desenvolver uma pioneira e renovadora interpretação da História da Literatura Portuguesa, em inúmeros trabalhos sobre alguns dos seus mais representativos autores. Mais recentemente, também Helder Godinho (professor da Univ. Nova de Lisboa), um dos tradutores de obras de G. Durand para português, desenvolveu um importante trabalho de investigação, O Universo Imaginário de Vergílio Ferreira (1985), salientando e interpretando as raízes simbólicas e as imagens recorrentes da escrita ficcional do escritor. O trabalho foi apresentado originalmente como dissertação de Doutoramento, tendo a orientação directa de G. Durand.

Como vemos, foi longo, diversificado e heuristicamente enriquecedor o caminho percorrido desde as reflexões de C. G. Jung que, em 1930, se debruçava sobre as relações entre a Psicologia e a Literatura, no âmbito do renovador movimento da Ciência da Literatura alemã. A utopia da Ciência, herdada da cultura oitocentista, entrou em crise há muito tempo. Num momento em que, cada vez mais, se questionava a fundamentação da epistemologia científica, os seus métodos e conquistas, a sua objectividade e racionalidade, a própria oposição entre Ciência e Imagiário foi abalada por pensadores como G. Bachelard, que era um filósofo da Ciência. No novo paradigma epistemológico em que vivemos, já não faz sentido falar nas fronteiras rígidas e intransponíveis entre a pretensa objectividade das ciências da natureza e a irrecusável subjectividade das ciências do espírito. A metáfora e o símbolo invadiram o tradicional campo da Ciência, demonstra G. bachelard. É a hora ce reflectir sobre a a-racionalidade da Razão e sobre o imaginário da Ciência e da Cultura humanas.

17,00 
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Poesia – Fernando Lemos

Quando Breton define a práctica do Surrealismo fá-lo enquanto modo de auscultação terapêutica, estudo acerca da amplitude da mente e das emoções, como forma de procurar uma verdade menos comum e impossível de padronizar. Importava observar a improvável cabeça humana no sem-limite da imaginação e do sentimento.
Fernando Lemos é um dos exemplos esplendorosos da estetização de algo que começa por ser uma estratégia psiquiátrica e se faz arte, corrente artística e de implicações ideológicas ou filosóficas. A sua intervenção é absoluta, deitando mão de valências díspares, como a fotografia, a pintura ou a poesia, para consumar o que era o propósito de Breton: entender que há uma liberdade interna que o indivíduo tende a desconhecer, tende a não exercer. Uma Liberdade que não se inibe perante a loucura, não se inibe perante a sanidade.

A arte de Fernando Lemos é uma ansiedade intensa pelo exercício da Liberdade. Atravessando ditaduras, a portuguesa e a brasileira, sempre junto ao sonho de contribuir para países melhores e pessoas potenciadas, Lemos é um artista completo, e a poesia que agora reeditamos mostra-o assim: preocupado, provocador, humorizado, frontal, desconcertante, imprevisível, visual.
Obrigatoriamente na História do Surrealismo mundial, o poeta é testemunha da normalização do anormal, depositando na arte algo que lhe será sempre maior: a humanidade enquanto oportunidade de certo absoluto. Como o que foi guardado apenas para os deuses. Um olhar para dentro de todos os mistérios.

Valter Hugo Mãe

19,00 
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Um Dia Tudo Isto Será Meu

Há na poesia de João Habitualmente uma impressão de ironizar tudo em favor de certa nostalgia. Não é imediato. Vamo-nos inteirando de seu espírito lentamente, disfarçado como está numa contida desgraça também cómica.

Pode acentuar-se nos poemas em que as moças, a palha e os campos seguem um imaginário algo antigo. Sabemos das aldeias como do lugar onde a verdade morreu.

O jeito de Habitualmente é muito específico. Produz um efeito quase mal-educado, um impropério ou modo de se marimbar, que fere os poemas na sua rama mais lírica, por vezes meio romântica, a prometer desfechos bem comportados que nem sempre se consumam.

Temos constantemente a sensação de o poema ser devorado pelo golpe do que não se domina, uma inclinação para que se diga de modo armado, perigando a condição do poeta e denunciando a desfaçatez do mundo. Todas as figuras são dignas de serem, a um tempo, maravilhosas e terríveis. Todas podem tornar-se risíveis.

É talvez o traço mais constante da poesia de João Habitualmente, a assunção da falha. Algo que poderia ser imaculado mas que, por azar da extrema realidade, se vulnerabiliza. Como aquela história da educação. Tem tudo para ser irrepreensível, de uma cultura e elegâncias inestimáveis mas, aqui e ali, não contém a limpidez do protesto. A limpidez da catarse. Fá-lo brilhantemente. Protesta, insulta e ama brilhantemente.

por Valter Hugo Mãe, coordenador da coleção elogio da sombra.

14,00 
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